domingo, 5 de fevereiro de 2017

SONETO DO AMIGO.



Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

COISA AMAR


Manuel AlegreÉ

Coisa amar
Contar-te longamente como perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e como ilhas que só há verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente como misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te como um

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CHOVE.É DIA DE NATAL.



Chove. É Dia de Natal

Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' 

UM BOM NATAL A TODOS


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O MEDO DE SER LIVRE!!!!!!


"Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir nossos desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou do tempo em que temíamos a Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las conosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus".
(Fala do Comandante Sem Medo para Ondina em Mayombe, Pepetela)
“Ils me dirent, ‘signe toi,’
Mais je n'ai pas peur; (...)
Oh, the wind, the wind is blowing,
Through the graves the wind is blowing,
Freedom soon will come;
Then we'll come from the shadows.”
(The Partisan, LEONARD COHEN)
Rubia, José avisem o pessoal que a obra amanhã será Mayombe. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

FOLHAS MORTAS!!!!!


FOLHAS CAÍDAS
Os meus pensamentos
são como as folhas de uma árvore
que tem a minha idade .
Enquanto umas folhas caem
outras há
que num tempo vão nascer .
Saem idênticas
mas em posições diferentes
conforme o que o vento
fez aos ramos .
Umas desaparecem
outras trazem vida
e a árvore é sempre a mesma .
Envelheceu , mas não morre .
Tem raízes que a sustentam
Tem paz e amor
Tem poesia .
Não a cortem
nem a queimem !
Tereis a sombra
e a luz do seu ser .
Tereis a paz
Tereis a vida .
Rui Pina
(reservados direitos de autor nos termos da lei )
SUBLINHO TOTALMENTE

sábado, 8 de outubro de 2016

COISA AMAR



Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre

sábado, 1 de outubro de 2016

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO!!!!!!!



PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

QUANDO A PRIMAVERA VIER!!!!!


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era de.
08pois de amanhã. /
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando


QUANDO A PRIMAVERA VIER.......

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

TROMBETA.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda 

Trombeta revisitado!
"A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim."
Fernando Pessoa
in Novas Poesias Inéditas.

sábado, 10 de setembro de 2016


SONETO PRESENTE.



Soneto presente
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu
José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

PARA VIVER!!!!!!


PARA VIVER "LEVE" CADA DIA DE SETEMBRO __________
Leve Consigo Apenas Coisas Boas Que Alimente Sua Alma,
Que Te Dê Calmaria. Paz.
Leve Os Risos Que Você Espalhou As "Fotos" De Coisas Belas
Que Seu Coração Registrou.
Leve A Ternura Dos Abraços Amigo.
O Brilho Nos Olhos De Tudo Que Você Viu Com Amor E Amou.
Leve A Dose Da "Recarga" Da Fé Que Se Acumulou.
A Esperança Que Te Moveu Durante O Dia.
Leve A Prece Que Sua Mente Criou...E Ore.
Leve Deus Em Seu Coração...Juntinho De Você...Sempre."

_______Luandrade

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

SONETO DO AMIGO.



SONETO DO AMIGO
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinícius de Moraes.
A TODOS UM BOM F.DE SEMANA

sábado, 20 de agosto de 2016

PÉROLA DO ATLANTICO



PÉROLA DO ATLÂNTICO

Olho para o meu eu e sei
Tenho-te na minha existência
Cheia de saudade, sempre te recordarei
Meu nascimento e adolescência
Daquela pérola no atlântico nascida
Filha de Angola querida
Entre o mar e a baía
Destemidamente construída
Feita de tão pura beleza
Tu … LOBITO minha bela cidade
Que fortaleces meu coração
Abençoaste-me com a tua naturalidade
Cheia de vaidade a tua cidadania
É a minha saudade cheia de alegria
Tens marginal, és litoral
Sinto o teu cheiro tropical
Nas ondas da tua maresia
Resplandeces cheia de luz
No deslumbramento do amanhecer
Do por do sol que te enaltece


A:D.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

HOJE NÃO SOU.....





Hoje não sou

Hoje não sou
as margens que te enlaçam
como ninfa mareante,
a vogar arrebatada,
nua e pura, sem miragens,
na corrente do teu rio cristalino,
nem a água que corre sagaz
na pele do teu corpo ainda moço.
Hoje não sou o olhar atrevido
à janela da tua procura
no fundo chão da verdade,
nem gesto de pássaro errante
na tua rota aparente
de gazela perdida,
a viajar acordada na distância
que te aparta de mim.
Hoje não sou fome nem sede,
alvoroço, desejo ou ardor.
Muito menos o bombeiro incendiário
do teu acirrado fulgor,
ou mente de boca insana
que percorre, consistente,
a carne dos teus loucos segredos.
Hoje sou o silêncio
que escuta na concha
o mar do teu grito,
sou o sussurro do vento
sem distâncias
que te enroupa de concórdia,
sou o murmúrio da chuva miudinha
que te chama para a margem certa
num rio de janelas luminosas.
NILSON.BARCELLI

domingo, 14 de agosto de 2016

PRINCIPALMENTE!!!!!



Principalmente saber o que me diz a minha paixão
Para poder falar com o meu coração
E entender uma parte do meu eu
Realizar meu sonho: Conquistar também o teu
Eu gostaria de conhecer
Todo o significado dum nobre sentimento
Como o sol que tem o seu poente
E o amanhã com o seu magico amanhecer
Eu gostaria de fortalecer
Teus segredos e vivências do teu amanhã
Sacando dum génio, todas as magias
Colorindo-te de amor e puras fantasias
Fazendo-te acreditar
O nascimento do teu renascer

Analili, 18/04/2013
 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016


EU ERA A EVA!!!!!



Eu era a Eva
Criada para a felicidade de Adão
Mais tarde fui Maria
Dando à luz a...quele
Que traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi:
Não dá mais!
Quero minha dignidade
Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou caminhoneira, taxista,
Piloto de avião, policial feminina,
Operária em construção ..
Ao mundo peço licença
Para atuar onde quiser
Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
E meu nome é MULHER !!!
(O Autor é Desconhecido, mas um verdadeiro sábio)

sábado, 30 de julho de 2016

ESTAÇÃO DE SÃO BENTO.(PORTO)










ESTAÇÃO DE SÃO BENTO
Praça de Almeida Garret, no centro da cidade do Porto
Entrou ao serviço no dia 7 de Novembro de 1896, muito embora só sido inaugurada oficialmente em só em 5 de Outubro de 1916.
«A Estação é célebre pelos seus painéis de azulejos, de temática histórica. Cobrindo uma superfície de cerca de 551 metros quadrados, representam, principalmente, cenas passadas no Norte do país, estando retratados, entre outras cenas, o Torneio de Arcos de Valdevez, a apresentação de Egas Moniz com os filhos ao Rei Afonso VII de Leão e Castela, no Século XII, a entrada de D. João I e de D. Filipa de Lencastre no Porto, em 1387, e a Conquista de Ceuta, em 1415; um friso colorido, no átrio, dedica-se à história dos transportes em Portugal, concluindo com a inauguração dos caminhos de ferro. Foram instalados entre 1905 e 1906 pelo artista Jorge 

terça-feira, 26 de julho de 2016

SER AVÓ.......




Teve tantos desenganos!

Ficou branquinha, branquinha,

Com os desgostos humanos.

Hoje, na sua cadeira,

Repousa, pálida e fria,

Depois de tanta canseira:

E cochila todo o dia,

E cochila a noite inteira.

Às vezes, porém, o bando

Dos netos invade a sala . . .

Entram rindo e papagueando:

Este briga, aquele fala,

Aquele dança, pulando . . .

A velha acorda sorrindo,

E a alegria a transfigura;

Seu rosto fica mais lindo,

Vendo tanta travessura,

E tanto barulho ouvindo.

Chama os netos adorados,

Beija-os, e, tremulamente,

Passa os dedos engelhados,

Lentamente, lentamente,

Por seus cabelos, doirados.

Fica mais moça, e palpita,

E recupera a memória,

Quando um dos netinhos grita:

"Ó vovó! conte uma história!

Conte uma história bonita!"

Então, com frases pausadas,

Conta historias de quimeras,

Em que há palácios de fadas,

E feiticeiras, e feras,

E princesas encantadas . . .

E os netinhos estremecem,

Os contos acompanhando,

E as travessuras esquecem,

— Até que, a fronte inclinando

Sobre o seu colo, adormecem . . .

AVÓ SINTO TANTA SAUDADE!!!!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

LEMBRANÇAS



LEMBRANÇAS
"Era um tempo
de aves brancas
sulcando o céu
como estradas de luz
Um tempo
onde os silêncios
cantando
a esperança e os sonhos
te desenhavam sensualmente
Vinhas
com as mãos a abarrotar
de estrelas
e eu te esperava
com o orvalho da noite
e o alvorecer das rosas
…urgentemente"

LUIZA  CAETANO
PINTORA E ESCRITORA

quarta-feira, 13 de julho de 2016

OS TEUS PÉS!!!!!



Os teus pés
Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.
Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram vôo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem."
Pablo Neruda


segunda-feira, 11 de julho de 2016

VIVA PORTUGAL



Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

DO AMIGO
EDUARDO CASANOVA.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

TINHA OS GESTOS INOCENTES....





Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-na ser do mundo.
Tinha os gestos inocentes.

Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde!
Aqui tudo é paz e mar.

Sim, poderia ter sido...
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.
Sim, poderia ter sido...

Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, oiço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que vejo azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho.

Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.
Não foi propósito, não.

Durmo, desperto e sozinho.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho —
Um movimento sem lida...
Durmo, desperto e sozinho.

Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois —
Nada explica nem consola.

~~


29 - 3 - 1929

Fernando Pessoa

quinta-feira, 23 de junho de 2016

QUANDO EU NASCI.....23/06/ ÁS 3H.


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…
P’ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…
José Régio

quinta-feira, 16 de junho de 2016

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM........


Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca. 

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte. 

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

sexta-feira, 10 de junho de 2016

DIA DE PORTUGAL.

Hoje é Dia de Portugal! Aqui deixo as palavras luminosas de Sophia de Mello Breyner Andresen! E Viva Portugal!
Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da Terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

-Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar

AMIZADES





A gente se perde aos pouquinhos,
se afastando de amizades verdadeiras,
de amores eternos, de abraço de mãe,
de carinho de gente que te conhece de
verdade. E quando faz o caminho de
volta, percebe que seu cantinho estava
guardado na vida de cada um, que os
braços continuavam estendidos, o colo
pronto, o riso fácil e a casa segura.
- Renata Fagundes - 

sábado, 4 de junho de 2016

UM TEXTO.


A LÓGICA PORTUGUESA É DIFERENTE DA DO BRASILEIRO
Brasileiro faz piada com português por não entender que os dois povos têm lógicas diferentes. O português é mais literal, cultiva um preciosismo de sintaxe. Veja só:
Uma brasileira dirigia por Portugal, quando viu um carro com a porta de trás aberta. Solidária, conseguiu emparelhar e avisou:
- A porta está aberta!
A mulher que dirigia conferiu o problema e respondeu irritada:
- Não, senhora. Ela está mal fechada!

Outro brasileiro estava em Lisboa e numa sexta-feira perguntou a um comerciante se ele fechava no sábado. O vendedor respondeu que não. No sábado, o brasileiro voltou e deu com a cara na porta. Na segunda-feira, cobrou irritado do português:
- O senhor disse que não fechava!
O homem respondeu :
- Mas como vamos fechar se não abrimos?

Um jornalista hospedou-se há um mês num hotel em Évora. Na hora de abrir a água da pia se atrapalhou, pois na torneira azul estava escrito 'F' e na outra, preta, também 'F'. Confuso, quis saber da camareira o porquê dos dois 'efes'. A moça olhou-o com cara de espanto e respondeu, como quem fala com uma criança:
- Ora pois, fria e fervente.

Em Lisboa, a passeio, resolveu comprar uma gravata. Entrou numa loja do Chiado e, além da gravata, comprou ainda um par de meias, duas camisas sociais, uma polo esporte, um par de luvas e um cinto. Chorou um descontinho e pediu que fechasse a conta.
Viu então que o vendedor pegou um lápis e papel e se pôs a fazer contas, multiplicando, somando, tirando porcentagem de desconto, e aí intrigado, perguntou:
- O senhor não tem máquina de calcular?
- Infelizmente não trabalhamos com eletrônicos, mas o senhor pode encontrar na loja justamente aqui ao lado...

Há ainda a história de um que morou por um ano em Estoril e contou que, lá num certo dia, meio perdido na cidade, perguntou ao português:
- Será que posso entrar nesta rua para ir ao aeroporto?
- Poder o senhor pode, mas de jeito algum vai chegar ao aeroporto...

Um turista brasileiro alugou um carro e decidiu ir à Espanha. Tomou uma estrada sem muita convicção e encontrando à beira da estrada um camponês, perguntou:
- Amigo esta estrada vai para a Espanha?
E o camponês respondeu:
- Se ela for vai nos fazer muita falta por cá.

Um grupo de brasileiros tendo terminado de almoçar quis tomar café.
O primeiro disse:
- Garçon, um café.
O segundo disse:
- dois, levantando os dedos.
O terceiro, apressadamente, disse:
- Três, e por fim o quarto disse:
- Quatro.
O garçon trouxe 10 cafezinhos. Ao ser indagado por que trouxera tanto café para quatro pessoas, ele respondeu:
- Ora um pediu um, outro dois, outro três e o outro quatro faça a conta e vejam se não são 10!!

Mais uma:
O brasileiro examina o cardápio em um restaurante de Lisboa e chama o garçon para tirar uma dúvida.
- Amigo, como é que vem este Filé à Moda da Casa?
Ao que o garçon responde sem pestanejar
- Sou eu mesmo que trago.

E a melhor....O casal de brasileiros entra num restaurante na rua do Diário, que tem uma vista bonita para o rio e pergunta:
- Podemos sentar naquela mesa que tem a vista para o rio?
No que o garçon responde:
- Acho melhor os senhores sentarem nas cadeiras!!!
via Jorge Soares



segunda-feira, 30 de maio de 2016




Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."
Fernando Pessoa
 

sábado, 28 de maio de 2016

O DESPERTAR DOS MÁGICOS.....



" O Despertar dos Mágicos".

Quisera
te descrever
num verso
Âncora deslumbrada!
Esperança!
Oração!
Talvez perversa...
Talvez emocionada...
Pintar-te
Um quadro pleno de vida
Uma cruz ensanguentada
de Pôr do Sol
e
Alvorada
Um Altar!
Uma emoção!
Um pingo vermelho
de paixão!
Um Mar! Um barco!
Um cisco-Cio-saudade
Uma âncora deslumbrada
Quisera, Sim
meu Amor
ao vivo,madrugada!

Luiza Caetano.

sábado, 21 de maio de 2016

O MEU BALÃO.!!!!







Iniciei uma viagem:

Saí de lá,da minha terra

que fica a "abraçar" a Serra,

Sobrevoei rumo a um País Tropical.

Parei:

Era lindo,muito lindo!

Continuei navegando pelo rio

e preparei a partida

recordando uma dolorosa despedida.

Voltei para uma outra terra

que fica a "beijar" a Serra.

Gestos diferentes,sentimentos iguais!

Parei:

Era Feliz,muito feliz!

Continuei pelo rio... e ...e...

venho ao meu Porto de abrigo.

Berço da minha ascendência e descendência.

Sei que vivo e luto com a minha consciência.

Abri os olhos e o meu balão

não foi mais que uma remota ilusão!

(EU)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O CEGO E A GUITARRA.....




"O cego e a guitarra" de Fernando Pessoa
O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

VAMPIROS



No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada [Bis]

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhe franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
JOSE AFONSO “Vampiros”


DO MEU AMIGO.
CASANOVA

terça-feira, 10 de maio de 2016

SOMOS FILHOS DA MADRUGADA!!!!


Mikhail Bakhtin



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nós vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nós vamos
À procura da manhã clara

Lá de cima de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Cá de cima de uma montanha

quinta-feira, 28 de abril de 2016

UM SINAL




Foto de Rita Mara Lorusso Todeschi.
UM SINAL
Deixa-me um sinal
quando quiseres.
Uma pedra, uma estrela ou uma ave
um cheiro,
um aroma
ou um morango
Uma cruz
talhada na minha porta
Que o caminho eu acharei
encruzilhado
entre o gesto e o espanto
pressentido
entre o vácuo e o manto!
ou o mar !
ou o vento!
ou as velas do meu barco
parado algures
no inevitável
porto das esperas.


POEMA:

LuizaCaetano.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

EM UM CANTO.....




Em um canto do quarto,
Estou a vê-la, se ela entrar,
Uma sombra passa,
Aqui está desaparecida,
Vou abrir uma gaveta,
Depois dois, depois três,
Ela ainda não está aqui,
Estou sentindo que me roça,
Faço mudanças de cara,
Ela não está aqui,
Eu olho para debaixo da cama,
Nada mais,
Atrás da cortina,
Sob a lâmpada,
Enrolado num cobertor?
Não, nada, ela desapareceu...
Vejo algumas palhetas,
Na borda da cama,
Uma Sininho perdida,
Sobre um travesseiro,
Eu levanta o segundo,
Foi agora encontrado,
A minha fada,
Toda dourada,
Enrolada nas suas asas,
Dormindo na minha cama!
‪

AD

sábado, 9 de abril de 2016

O SINO DA MINHA ALDEIA!!!!



Ó sino da minha aldeia 
dolente na tarde calma, 
cada tua badalada
soa dentro da minha alma...

E é tão lento o teu soar,
tão como triste da vida,
que já a primeira pancada
tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto,
quando passo, sempre errante,
és para mim como um sonho,
soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
vibrante no céu aberto,
sinto o passado mais longe,
sinto a saudade mais perto...

A.D.

terça-feira, 5 de abril de 2016



O Rosto Do Povo

Hirtas mãos azafamadas
Criativas, tão obreiras
Ergues as redes douradas
Contra as correntes blasfemas
E lavras as sementeiras
Como se fossem poemas
Pinto o céu, uma aguarela
Na beleza me comovo
Visto-me de caravela
Rasgo as lágrimas salgadas
Limpando o rosto do povo
P’las ondas desventuradas
Tu já nasceste um poeta
E fazes da desesperança
As palavras de um profeta
Alentado nos cansaços
E anuncias a mudança
Com molhos verdes de abraços
Tens no cheiro a maresia
Das ânsias da humanidade
Que carregas dia-a-dia
No teu peito tão enraizada
E transportas a saudade
À partida e à chegada


Maria Marques Jacinto